Thursday, August 21, 2008

II Dia

Um novo dia se aproxima, mais uma manha de solidão, mais uma tarde á espera de morrer.
Olho pela janela, minha tela de cinema magica, permite-me ver como é que este filme que é a vida vai....

O vento bate nas árvores, um leve assobio invade esta sala e por momentos penso que está aqui alguém... mera ilusão frustrada a juntar ás muitas já esquecidas....

A chuva, sorrateiramente começa a cair, primeiro um pingo, depois dois... o céu está negro, assim como eu, mas ao contrário do céu, já não incomodo mais os outros com a minha chuva. Optei pelo clima seco e quente, como ao vislumbrar um deserto, mira-se o horizonte e nada se vê... tudo igual e mesmo assim, ele esconde as suas maravilhas, os seus animais, o seu oásis... o meu oásis é este papel velho e esta caneta que começa a falhar...

Muitas linhas, muitas memórias, pouco tempo...

Lembro-me de uma vez quando era jovem, devia ter os meus 17 anos. Estava a passar ferias com os meus pais. Andava pela rua sozinha, assobiando. O vento batia forte e parece que ainda sinto os meus longos fios de cabelo a passarem por minha cara.

Lembro-me desse dia. O dia em que conheci o Amor no seu mais puro acto de ser. Andava por essa rua, quando vi o olhar triste de uma criança. Ficámos perto de 10 segundos a olharmo-nos fixamente. O tempo cessou. Como por magia tudo parou. O vento não soprava. Apenas as nossos olhares. E de repente a criança veio ter comigo e deu-me uma mola. Aquela criancinha pobre e sem abrigo dera-me uma das únicas coisas que possuía. A sua mola para prender os meus cabelos...

Ainda tenho essa mola.. guardei-a e agora desejo dá-la a alguém, mas não tenho ninguém a quem dar uma mola!... choro...

Uma lágrima rola lentamente pela minha face, lenta lentamente até se encontrar com os meus lábios pequenos e macios. É salgada, um arrepio percorre o meu corpo, entra em todas as saliências misteriosas que outrora foram tocadas...

Amar, já perdi o gosto por isso, já não sei o que é amar... Relembro os tempos em que era elevada os domínio das deusas perfeitas... cobiçada pelos olhares maliciosos, quantas vidas despedaçadas, quantas famílias acabadas e eu sem remorso algum, acabo aqui nesta casa....

Sunday, August 03, 2008

Dias de Novembro e o Sol a tentar espreitar

I Dia:

Tic Tac Tic Tac

O relógio da parede mede o tempo, como se de uma corrida se tratasse.
Tic tac tic tac.

O meu rosto velho e cansado impede-me de chorar, ou sorrir.
Minha mente escura impede-me de sonhar....

Olho para a parede, branca, calma, e o relógio continua a sua cantoria, como o refrão de uma melodia.... tic tac tic tac.....

Olho pela janela, lá fora na rua vislumbro a silhueta elegante de uma jovem, cabelo apanhado, óculos, dentes á mostra rindo alegremente. Minha mente vagueia, perdida pela imensidão da minha juventude. Algures no passado, recordo a jovem que fui, julgo nunca ter ouvido o tic tac do relógio. Quando se é jovem, o tempo não constitui nenhuma barreia. Somos jovens e o futuro anda lá longe.

Uma vida inteira, e agora já no fim desta jornada, paro.

Minhas mãos rugosas, as unhas pintadas, habituadas ao vermelho vivo, redimem-se agora ao cor-de-rosa; meus pés pequenos e chatos.
Olho a minha volta. Esta sala revestida a madeira. Á entrada o grande móvel onde jazem os copos das grandes festas que dei. Fotografias, paragens no tempo. E o ramalhete de rosas artificias, como se o irritante Tic Tac não existisse!

A estante de livros ao lado. Rio-me ao relembrar as horas de sacrifício ao me ver obrigada a deglutir 50 paginas de descrições de velhos que eu nunca seria... e agora dou comigo a escrever... ironia do destino...

Mas a vida é tão irónica.....