II Dia
Um novo dia se aproxima, mais uma manha de solidão, mais uma tarde á espera de morrer.
Olho pela janela, minha tela de cinema magica, permite-me ver como é que este filme que é a vida vai....
O vento bate nas árvores, um leve assobio invade esta sala e por momentos penso que está aqui alguém... mera ilusão frustrada a juntar ás muitas já esquecidas....
A chuva, sorrateiramente começa a cair, primeiro um pingo, depois dois... o céu está negro, assim como eu, mas ao contrário do céu, já não incomodo mais os outros com a minha chuva. Optei pelo clima seco e quente, como ao vislumbrar um deserto, mira-se o horizonte e nada se vê... tudo igual e mesmo assim, ele esconde as suas maravilhas, os seus animais, o seu oásis... o meu oásis é este papel velho e esta caneta que começa a falhar...
Muitas linhas, muitas memórias, pouco tempo...
Lembro-me de uma vez quando era jovem, devia ter os meus 17 anos. Estava a passar ferias com os meus pais. Andava pela rua sozinha, assobiando. O vento batia forte e parece que ainda sinto os meus longos fios de cabelo a passarem por minha cara.
Lembro-me desse dia. O dia em que conheci o Amor no seu mais puro acto de ser. Andava por essa rua, quando vi o olhar triste de uma criança. Ficámos perto de 10 segundos a olharmo-nos fixamente. O tempo cessou. Como por magia tudo parou. O vento não soprava. Apenas as nossos olhares. E de repente a criança veio ter comigo e deu-me uma mola. Aquela criancinha pobre e sem abrigo dera-me uma das únicas coisas que possuía. A sua mola para prender os meus cabelos...
Ainda tenho essa mola.. guardei-a e agora desejo dá-la a alguém, mas não tenho ninguém a quem dar uma mola!... choro...
Uma lágrima rola lentamente pela minha face, lenta lentamente até se encontrar com os meus lábios pequenos e macios. É salgada, um arrepio percorre o meu corpo, entra em todas as saliências misteriosas que outrora foram tocadas...
Amar, já perdi o gosto por isso, já não sei o que é amar... Relembro os tempos em que era elevada os domínio das deusas perfeitas... cobiçada pelos olhares maliciosos, quantas vidas despedaçadas, quantas famílias acabadas e eu sem remorso algum, acabo aqui nesta casa....
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